domingo, 4 de março de 2012

O poeta Affonso Manta

Affonso Manta Alves Dias (foto) foi um dos poetas brasileiros mais originais de seu tempo, conquanto em parte desconhecido. Nascido em Salvador, a 23 de agosto de 1939, foi guia em museu de arte sacra, repórter do Diário de Notícias e, posteriormente, inspetor da Seção de Reclamações dos Correios e Telégrafos, onde se aposentou. Era, pela via paterna, primo de quarto grau do grande poeta Castro Alves, embora nunca tenha feito proselitismo em cima disso. Levou uma vida modesta, de funcionário público, e ajudou com seus proventos muitos desvalidos em Poções, cidade baiana em que residiu nos seus últimos trinta anos. Publicou vários livros de poesia, dentre eles A Cidade Mística e Outros Poemas (1980), Retrato de um Poeta (1983), No Meio da Estrada (1991) e O Estranho na Terra (1995). Sua poesia foi construída em cima da ironia e da farsa, constituindo o autor em um crítico mordaz do cotidiano medíocre, do provincianismo e de todas as formas de autoritarismo. Morreu a 3 de dezembro de 2003, em sua casa na Rua Cel. Alberto Lopes, acompanhado apenas de um irmão médico e de uma cunhada. Sua obra ainda aguarda o devido reconhecimento por parte da crítica, dos leitores e dos editores -- todos os seus livros estão esgotados, nunca foram relançados e mesmo nos sebos são artigos de luxo (há anos procuro vestígios de Affonso Manta em todo o Brasil, sem sucesso).

O Realejo de Vinho
Para Sólon Barreto

Para quem me queira ouvir:
Sou um homem aos frangalhos.
Parte por culpa de tudo.
Parte por culpa de nada.

E digo mais ao casual
Ouvinte deste relato:
Não sendo herdeiro nem rico,
Não tenho crédito na praça.

Amo as japonas escuras,
De mangas e tudo vasto.
E os colarinhos puídos
Uso desabotoados.

Ao pôr a minha gravata,
Fabrico um laço bem largo.
E acho triste andar com ela.
E, mais tristes, as gravatas.

Eu nunca faço questão
Que uma roupa seja cara.
Mas, ampla: e, sendo possível,
Com certo ar desesperado.

Eu prefiro, aos bons charutos,
Um velho e forte cigarro.
E odeio fumar cachimbo.
Pois sou muito angustiado.

No mais: um vento me agita,
Interior e largado,
E me devasta os cabelos,
Rosto, sorriso e palavra.

Opus 7
Soneto ao poeta Adelmo Oliveira

Embora eu sofra muito neste duro
E trágico planeta sublunar;
Embora eu me debata contra o muro
De uma angústia constante, regular,
Eu creio na bandeira do futuro.
Eu creio numa guerra popular.
Eu creio no horizonte largo, puro,
Do povo no poder a governar.
Pois a tristeza que meu peito invade
Não me impede de amar a liberdade.
Amo-a, ao invés, com maior devoção.
A liberdade que é meu arrebol,
"Esposa do porvir, noiva do sol"
Como disse Castro Alves, com razão.

Lá vai Affonso Manta

Com estrelas na testa de rapaz,
Com uma sede enorme na garganta,
Lá vai, lá vai, lá vai Affonso Manta
Pela rua lilás.

Coroa de alumínio sobre o crânio,
Lapelas enfeitadas de gerânios
E flechas no carcaz.

Manto florido de madapolão,
Bengala marchetada de latão,
Desfila o marechal,

O rei da extravagância, o sem maldade,
O campeão da originalidade
O peregrino astral.

3 comentários:

  1. A Academia de Letras da Bahia vem de publicar uma antologia, organizada por Ruy Espinheira Filho, agora em 28 nov 2013.

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    1. É uma pena a gente ficar sem mais um dos melhores poetas do Brasil 🇧🇷 😢
      Quanta poesia linda, ele ainda poderia ter feito!

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  2. Alguém poderia me informar se tem mais poesias dele?

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