domingo, 25 de novembro de 2012

Silvio Rodriguez une a América Latina no Luna Park


Buenos Aires, 23 de novembro de 2012
Mais de 7 mil pessoas, jovens em sua maioria, lotaram o estádio Luna Park, em Buenos Aires, para reverenciar a Silvio Rodriguez na noite do último dia 23 de novembro. Era o primeiro de dois shows que o cantor e compositor cubano faria na capital argentina, seis meses depois de ter se apresentado naquela cidade. “Uma tremenda surpresa para mim, voltar em tão pouco tempo”, declarou o artista, em suas primeiras palavras ao público que o recebeu de pé, aos gritos de “Cuba, Cuba, el pueblo te saluda!”.
A primeira impressão que Silvio transmite diante do microfone é a de ser um homem reservado, de gestos contidos e grande controle emocional. A partir do momento em que sobe ao palco, parece recusar a sua condição de astro da música popular latino-americana – o que fica patente em sua opção por se sentar em meio aos músicos que o acompanham, nunca à frente, raramente em posição de destaque. O show não é individual, mas coletivo – como o demonstra na singela atitude.  
No palco, a postura de Silvio Rodriguez se parece muito com a de seu amigo Chico Buarque. Poder-se-ia dizer que são irmãos de sangue, separados pelo mar do Caribe, dada a timidez (o termo mais apropriado não seria timidez, mas vá lá...) com que cumprem o roteiro dos shows. Falam pouco. Passam a maior parte do tempo sentados, protegidos pelo violão. E cantam olhando para o chão, ou para o vazio.
Para decepção dos jornalistas (sempre em busca de polêmicas envolvendo declarações de apoio a Cuba ou aos governos de esquerda da América do Sul), Silvio não utilizou o microfone para defender a presidenta Cristina Kirchner da recente onda de protestos de que tem sido alvo – apesar dos gritos de “Viva Cristina” e “Viva Nestor”, que vez ou outra espocavam na plateia, incitando-o a dizer algo. O fato é que, na manhã do show, o trovador foi recebido por Cristina K com honras de chefe de estado na Casa Rosada – e isto já foi motivo para críticas na imprensa. Não é preciso que se posicione diante das câmeras, pois sua obra é a expressão fiel do que ele pensa acerca da vida, do amor e da política.
Espécie de porta-voz não oficial da revolução cubana, suas passagens pelos países da América Latina costumam vir acompanhadas de protestos. Dessa vez, a direita argentina não foi à frente do teatro para queimar bandeiras de Cuba, mas vomitou seu ódio a Silvio na internet – como se o autor de canções que falam de amor e liberdade fosse responsável pelos crimes da “ditadura cubana”. A estes, Silvio nunca responde. Tem coisas maiores com que se preocupar.
Atento às letras das canções, o público aplaude efusivamente quando capta a mensagem política ou existencial escondida atrás de uma metáfora. Ele entende que a voz de Silvio não é apenas a voz de Cuba, mas de toda a América Latina, uma vez que canta dores semelhantes e sonhos iguais. Os argentinos, por óbvio, estavam em franca maioria no estádio Luna Park. Mas gente de toda a América Latina havia se deslocado de seus países para prestigiar um dos grandes ídolos geracionais do continente: vi colombianos, chilenos e uruguaios lado a lado, unidos pela bandeira da música. E o Brasil – até que outro compatriota presente ao show se manifeste – esteve representado por este que vos escreve.
Após uma salva de palmas que durou uma eternidade, Silvio Rodriguez, sob a sombra do elegante chapéu panamá que passou a usar nos últimos anos, avisou que estava resfriado e pediu ao público que perdoasse eventuais deslizes na voz. “Não se sintam culpados, pois a gripe veio comigo de Havana...”, informou, para depois arrancar risos da plateia: "...Mas o clima de Buenos Aires acabou de me destruir”. Chovera durante quase todo o dia.
Então, avisou que faria um show “mais intimista”, priorizando canções de seu disco mais recente, Segunda Cita. Abriu o concerto com uma sequência ainda pouco conhecida: Toma, La Guevarista, Tonada Del Albedrío (que arrancou aplausos pela frase “nenhum intelectual deve ser assalariado do pensamento oficial”) e a belíssima Carta a Violeta Parra
Só depois é que as músicas consagradas começaram a aparecer – e elas incendiaram as arquibancadas. Em coro, a multidão passou a acompanhar o cantor. A primeira foi Santiago de Chile, que versa sobre o golpe de estado contra Salvador Allende, em 1973. Depois vieram El escaramujo, La era está pariendo um corazón, Quien Fuera – na qual cita Chico Buarque –, El Necio e Canción del elegido – que muitos, equivocadamente, pensam ser uma homenagem a Che Guevara, quando na verdade é dedicada a Abel Santamaría, amigo de Fidel torturado até a morte pela ditadura de Fulgêncio Baptista.

Antes de cantar San Petersburgo, uma das canções mais novas, Silvio explicou que ela nasceu de uma conversa casual com o escritor Gabriel Garcia Marquez durante um voo de Cuba para o México no qual eram os únicos passageiros. “Gabo me disse que, às vezes, vinham-lhe à mente ideias curtas, que não podiam ser aproveitadas em seus contos, mas que ele gostaria de aproveitá-las em forma de canções – se soubesse fazer canções. Passamos a viagem toda filosofando sobre isto”, contou.
Meses depois, Silvio desenvolveu uma dessas pequenas ideias anotadas por Gabriel Garcia Marquez – sobre uma noiva abandonada no dia do casamento –, misturando-a com elementos da literatura russa, mais propriamente de Alexander Pushkin, um de seus autores favoritos. O resultado é uma canção emblemática, repleta de imagens que se sucedem, aparentemente desvinculadas entre si (como num sonho), mas que depois encontram um sentido comum no arremate final.
Toda canção de Silvio Rodriguez é um hino individual ou coletivo. Mas nada supera a força simbólica das canções que produziu nos anos 60 e 70. Estas foram as escolhidas para encerrar o show: primeiro veio Angel para un final. Depois, Oleo de mujer con sombrero, cuja execução foi demasiadamente rápida para a comoção geral que seus primeiros acordes provocaram na plateia. O show chegava ao fim.
Mas ainda faltava um clássico inquestionável no programa. Então, depois de se despedir pela primeira vez e se recolher ao camarim, o trovador voltou ao palco para cantar, acompanhado de 7 mil vozes, aquela que talvez seja a sua melhor canção – ou, pelo menos, uma das melhores: Ojalá, imortalizada também por Mercedes Sosa.
Silvio voltaria quatro vezes mais. Em uma delas, tomou a liberdade de cantar uma canção infantil cubana. O público já estava em suas mãos e nenhuma das partes parecia disposta a ir embora. Foi preciso que a organização do Luna Park acendesse as luzes do estádio, depois do quinto bis, para que o show finalmente tivesse um fim, após duas horas e meia de música. Foi quando Silvio sacou uma máquina fotográfica do bolso e tirou uma foto da plateia. “Viva Cuba!”, gritou o povo. “Viva a Argentina!”, devolveu o cantor. 
Lá fora, a Avenida Corrientes recebia uma brisa refrescante, vinda de Puerto Madero, e tive que tomar um Fernet Cola para assimilar aquela noite. 
El Necio 
Canción del elegido

sábado, 17 de novembro de 2012

As moças da Paraíba


A música brasileira é uma das mais ricas do mundo, tendo em vista a sua imensa variedade de ritmos regionais, o timbre de seus instrumentos, a poesia espontânea que brota de seus artistas populares e a permanência atemporal de sua cultura. A música brasileira, esta fortaleza, atravessa os séculos sem nunca se dobrar, apesar de estar quase sempre proibida na programação das rádios e das TVs comerciais.

De Norte a Sul do Brasil, a música regional resiste às pressões das multinacionais do disco e encontra brechas para se fazer ouvir, independente dos desejos da indústria cultural. Não raro, a música brasileira subverte a lógica do mercado e se impõe nos grandes palcos, levada pelas mãos do povo que não vende a própria cultura.

Há pouco conheci umas moças da Paraíba que me deixaram profundamente emocionado. Amo a cultura do Nordeste – detentora de nossa música mais resistente. Ela é capaz de sobreviver ao tempo como um patrimônio único da identidade nordestina – e brasileira. E dentro desta cultura fantástica que é a nordestina, a paraibana talvez seja a mais intensa, com seus xaxados, seus cocos-de-roda, suas cirandas, suas quadrilhas e forrós...

O paraibano é um povo radicalmente ligado às suas raízes – e isso pode ser percebido inclusive nas escolas locais, onde o folclore é cultivado, não como matéria de estudo, mas como forma viva de se expressar perante o mundo. A dança, a poesia e a música são parte indissociável da formação do paraibano desde a mais tenra idade. Isto fica evidente quando vemos uma apresentação das meninas do grupo Clã Brasilpor exemplo. 

Fiquei um pouco surpreso ao descobrir que o grupo tem mais de dez anos de estrada. E mais ainda: que já se apresentou em países como Alemanha e Estônia, gravou três DVDs e dividiu palco com artistas consagrados como Sivuca, Alceu Valença e Dominguinhos em shows pelo Nordeste. A alegria pela descoberta foi acompanhada por um dedo de decepção: como é que eu nunca tinha ouvido falar desse grupo, mesmo escrevendo sobre música brasileira desde 2001?

No fole de Lucy Alves – herdado do bisavô Dedé do Cantinho – e em sua voz agreste, moram referências legítimas (não só musicais) de Jackson do Pandeiro, Gordurinha, Antônio Barros, Jacinto Silva, Luiz Gonzaga, Marinês, Mestre Vitalino, Lampião e Maria Bonita. Na postura da líder do grupo se percebe a defesa intransigente da tradição mais cara ao povo de Itaporanga (terra das moças) – como podemos apreender nesta música, O Galo, de autoria de seu antepassado:


As meninas do Clã Brasil são uma grata realidade. É perceptível que ainda têm muito a crescer musicalmente, mas louve-se a posição que já ocupam no Nordeste: a de um grupo que encarna – em oposição aos falsos artistas “universitários” que usam em vão o santo nome do forró para fazer sucesso – o melhor do povo de seu lugar. E que aos poucos vai levando este mesmo lugar para os cantos mais distantes do País.

Querem afastar o Brasil dos brasileiros, mas não conseguirão. E não conseguirão porque sempre há de nascer no sertão meninas como Lucy Alves, suas irmãs Laryssa e Lyzete, e sua amiga Fabiane (as integrantes do quarteto), dispostas a tocar em frente a tradição, respeitando os mais velhos sempre, mas sem deixar de dar à música sua bem-vinda contribuição de juventude – é o que fazem ao remoçar Feira de Mangaio, obra-prima de Sivuca, naquela que foi uma das últimas apresentações em vida do sanfoneiro:


As moças da Paraíba – e como são bonitas, as moças... – enchem o meu coração de orgulho e esperança no futuro do Brasil.



quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Carta ao pai



Por Miruna Genoino

“A coragem é o que dá sentido à liberdade”

Com essa frase, meu pai, José Genoino Neto, cearense, brasileiro, casado, pai de três filhos, avô de dois netos, explicou-me como estava se sentindo em relação à condenação que hoje, dia 9 de outubro, foi confirmada. Uma frase saída do livro que está lendo atualmente e que me levou por um caminho enorme de recordações e de perguntas que realmente não têm resposta.

Lembro-me que quando comecei a ser consciente daquilo que meus pais tinham feito e especialmente sofrido, ao enfrentar a ditadura militar, vinha-me uma pergunta à minha mente: será que se eu vivesse algo assim teria essa mesma coragem de colocar a luta política acima do conforto e do bem estar individual? Teria coragem de enfrentar dor e injustiça em nome da democracia?

Eu não tenho essa resposta, mas relembrar essas perguntas me fez pensar em muitas outras que talvez, em meio a toda essa balbúrdia, merecem ser consideradas…

Você seria perseverante o suficiente para andar todos os dias 14 km pelo sertão do Ceará para poder frequentar uma escola? Teria a coragem suficiente de escrever aos seus pais uma carta de despedida e partir para a selva amazônica buscando construir uma forma de resistência a um regime militar? Conseguiria aguentar torturas frequentes e constantes, como pau de arara, queimaduras, choques e afogamentos sem perder a cabeça e partir para a delação? Encontraria forças para presenciar sua futura companheira de vida e de amor ser torturada na sua frente? E seria perseverante o suficiente ao esperar 5 anos dentro de uma prisão até que o regime político de seu país lhe desse a liberdade?

E sigo…

Você seria corajoso o suficiente para enfrentar eleições nacionais sem nenhuma condição financeira? E não se envergonharia de sacrificar as escassas economias familiares para poder adquirir um terno e assim ser possível exercer seu mandato de deputado federal? E teria coragem de ao longo de 20 anos na câmara dos deputados defender os homossexuais, o aborto e os menos favorecidos? E quando todos estivessem desejando estar ao seu lado, e sua posição fosse de destaque, teria a decência e a honra de nunca aceitar nada que não fosse o respeito e o diálogo aberto?

Meu pai teve coragem de fazer tudo isso e muito mais. São mais de 40 anos dedicados à luta política. Nunca, jamais para benefício pessoal. Hoje e sempre, empenhado em defender aquilo que acredita e que eu ouvi de sua boca pela primeira vez aos 8 anos de idade quando reclamava de sua ausência: a única coisa que quero, Mimi, é melhorar a vida das pessoas…

Este seu desejo, que tanto me fez e me faz sentir um enorme orgulho de ser filha de quem sou, não foi o suficiente para que meu pai pudesse ter sua trajetória defendida. Não foi o suficiente para que ganhasse o respeito dos meios de comunicação de nosso Brasil, meios esses que deveriam ser olhados através de outras tantas perguntas…

Você teria coragem de assumir como profissão a manipulação de informações e a especulação? Se sentiria feliz, praticamente em êxtase, em poder noticiar a tragédia de um político honrado? Acharia uma excelente ideia congregar 200 pessoas na porta de uma casa familiar em nome de causar um pânico na televisão? Teria coragem de mandar um fotógrafo às portas de um hospital no dia de um político realizar um procedimento cardíaco? Dedicaria suas energias a colocar-se em dia de eleição a falar, com a boca colada na orelha de uma pessoa, sobre o medo a uma prisão que essa mesma pessoa já vivenciou nos piores anos do Brasil?

Pois os meios de comunicação desse nosso país sim tiveram coragem de fazer isso tudo e muito mais.

Hoje, nesse dia tão triste, pode parecer que ganharam, que seus objetivos foram alcançados. Mas ao encontrar-me com meu pai e sua disposição para lutar e se defender, vejo que apenas deram forças para que esse genuíno homem possa continuar sua história de garra, HONESTIDADE e defesa daquilo que sempre acreditou.

Nossa família entra agora em um período de incertezas. Não sabemos o que virá e para que seja possível aguentar o que vem pela frente pedimos encarecidamente o seu apoio. Seja divulgando esse e/ou outros textos que existem em apoio ao meu pai, seja ajudando no cuidado a duas crianças de 4 e 5 anos que idolatram o avô e que talvez tenham que ficar sem sua presença, seja simplesmente mandando uma palavra de carinho. Nesse momento qualquer atitude, qualquer pequeno gesto nos ajuda, nos fortalece e nos alimenta para ajudar meu pai.

Ele lutará até o fim pela defesa de sua inocência. Não ficará de braços cruzados aceitando aquilo que a mídia e alguns setores da política brasileira querem que todos acreditem e, marca de sua trajetória, está muito bem e muito firme neste propósito, o de defesa de sua INOCÊNCIA e de sua HONESTIDADE. Vocês que aqui nos leem sabem de nossa vida, de nossos princípios e de nossos valores. E sabem que, agora, em um dos momentos mais difíceis de nossa vida, reconhecemos aqui humildemente a ajuda que precisamos de todos, para que possamos seguir em frente.

Com toda minha gratidão, amor e carinho,

Miruna Genoino - 09.10.2012

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Chávez diz o que a imprensa brasileira não gosta de ouvir


A América do Sul, e especialmente a Venezuela, vive um momento histórico. A reeleição do presidente Hugo Chávez no último dia 07/10 significa não apenas o aval, dado pelo povo daquele país, para que se aprofundem as conquistas sociais da chamada Revolução Bolivariana. A vitória de Chávez significa também a oportunidade de fortalecimento do Mercosul – bloco formado por Brasil, Argentina, Uruguai e recentemente Venezuela (admitida após a expulsão do Paraguai, consequência do golpe institucional que tirou Fernando Lugo do poder). Juntos, estes quatro países se tornam uma das maiores potências energéticas e alimentares do Planeta.

O ingresso da Venezuela amplia as potencialidades do bloco, dando-lhe maior dimensão geopolítica e geoeconômica. Como disse a presidenta Dilma Rousseff, "de agora em diante nos estendemos da Patagônica ao Caribe". Com o ingresso do país vizinho ao bloco, o Mercosul passa a ser a quinta potência econômica mundial, contando com 270 milhões de habitantes (70% da população sul-americana) e com um PIB superior a 3,3 trilhões de dólares, correspondentes a 83% do PIB da América do Sul.

Ninguém precisa ser economista para perceber que a entrada da Venezuela no Mercosul é positiva ao Brasil sob vários os aspectos. Mas os jornalistas ligados às oligarquias midiáticas parecem não compreender conceitos básicos de soberania e autodeterminação. Na falta de argumentos factíveis contra o crescimento da região – concomitante ao declínio da Europa (em crise após décadas de espoliação neoliberal) – os jornais preferem atacar o governo Chávez.

Não são críticas civilizadas, mas ataques abaixo da linha da cintura. Quando não usam de ironia para mascarar o tom racista das críticas pessoais ao presidente mestiço, fazem afirmações levianas como: "Na Venezuela não há liberdade de imprensa"; "A ditadura chavista censura jornais e prende jornalistas"; "Chávez usa de violência contra opositores". Estas são algumas das ideias difundidas pelos meios de comunicação no Brasil, objetivando criar no Brasil um senso comum que não corresponde à realidade sobre este país irmão.

No vídeo abaixo, durante uma entrevista coletiva, um repórter do jornal O Globo questiona o presidente Chávez sobre as "perseguições à imprensa" na Venezuela. Sem pressa, mas com firmeza, o presidente venezuelano expõe as intenções melindrosas do funcionário do jornal. Explica o que representa, para os povos, a integração regional da América do Sul, defende Lula e mostra como a dita "imprensa livre" trabalha contra os interesses nacionais: "O Globo utiliza jornalistas para defender interesses particulares contra seu próprio país".


Um jornal que defendeu abertamente o golpe civil-militar de 1964 não tem autoridade moral para falar em nome da liberdade de imprensa e da democracia. 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Mestiço é bom


Eu tenho certeza que nós fizemos um país bonito, temos é que enforcar os canalhas. Os finos e educados, temos que enforcar. Mas, olha, o que eu digo, sempre, é muito fácil fazer uma Austrália: pega meia dúzia de franceses, ingleses, irlandeses e italianos, joga numa ilha deserta, eles matam os índios e fazem uma Inglaterra de segunda, porra, de terceira, aquela merda.
O Brasil precisa aprender que aquilo é uma merda, que o Canadá é uma merda, porque repete a Europa. É para ver que nós temos a aventura de fazer o gênero humano novo, a mestiçagem na carne e no espírito. Mestiço é que é bom.

Minha carne na Europa nunca foi tomada por portuguesa, ou por espanhola, ou por grega. Perguntaram se eu era persa, porque tinha muito mais cara de árabe, que parece muito mais com cara de índio.

Essas carnes velhas nossas não são caras viáveis na Europa. Então, nós fizemos um povo. Um povo capaz de herdar 10 mil anos de sabedoria indígena, de adaptação ao trópico e fazer uma civilização tropical. Depois é que o europeu chega aqui, plantando trigo. Esse povo está aí e eu digo que somos a nova Roma. Em Roma, querem que vá falar disso, querem que eu escreva mais artigos. E por que nova Roma? Somos a maior massa latina. Os franceses ficaram tocando punheta, os italianos bebendo chianti, os romenos com medo dos russos, quem saiu fodendo por aí foi espanhol e português e fizemos uma massa de gente que é de 500 milhões.

Então, os latinos só se multiplicaram aqui. Há dois mil e quinhentos anos saíram soldados do laço da Etrúria, falando latim, fizeram a França, fizeram Portugal, não sabem como. Pegaram os selvagens de lá, latinizaram e permaneceram. Como é que permaneceram em plena Península Ibérica, com 900 anos de domínio árabe e não se arabizaram? Como é que aguentaram todas as invasões e se mantiveram?

Nós somos melhores, porque lavados em sangue negro, em sangue índio, melhorado, tropical. Então, no futuro, você vai ver daqui a 100 anos, numa reunião, qualquer uma da humanidade, aquele bloco enorme de chineses, vão sobrar chineses, mais da metade dos homens serão chineses. Um absurdo! Vai haver quantidade de árabes, mil milhões de árabes. Importantíssimo, serão uma nova civilização, mil milhões de árabes fiéis à arabidade. Haverá 500 milhões de neobritânicos, haverá muitos outros. E haverá mil milhões de latino-americanos, que somos nós, os latinos. Só nós estamos com a cara lá, nós somos Roma.

Na reunião da humanidade, o que é importante não é a França, a Europa. Aquilo que dizia Sartre. A Europa, aquela peninsulazinha da Ásia, dobrada sobre a África, vai ficar reduzida ao seu tamanho. Vai ficar no mundo, no futuro, a América Latina, e na América Latina o Brasil, o Brasil com 300 milhões de habitantes.

Não é uma beleza? Mas querem acabar com a foda aqui, querem nos liquidar. O que eu quero é que esse povo cresça e esse povo vai realizar sua potencialidade. Não é possível que durante tantos séculos uma classe dominante infiel nos queira explorar como um proletariado externo. Isso não vai continuar, não. Eu escrevi um livro, “O Povo Brasileiro”, que vai ajudar aos brasileiros a se assumirem com orgulho como a nova Roma e entenderem que nós somos muito mais difíceis de fazer do que a merdinha da Austrália. Que nós estamos nos fazendo, que nós vamos amadurecer e é preciso vencer um dia a canalha. Eu quase venci em 1964. É claro que eu não podia vencer, com Lyndon Johnson mandando os navios dele para cá, com o jango não querendo brigar. Mas quase vencemos.

Somos uma Roma tardia. O seu gene tem gene Tupinambá, os que foram mortos. É a herança dos trópicos, vai melhorar. No dia em que a economia não seja para exportar, mas seja, como a norte-americana, para consumir.

Darcy Ribeiro (1922-1997). Do livro “Mestiço É Que É Bom” (editora Revan, 1997)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Discos bacanas - 1 : Som de Prata em Flauta de Lata

Gosto, mas não sou um profundo conhecedor da música instrumental brasileira. Neste universo tão vasto de timbres diversos e instrumentistas geniais, o Zimbo Trio tem um espaço de destaque no meu acervo. Acho que poucas coisas no mundo conseguem ser tão estimulantes e modernas quanto o som do Zimbo Trio. Porém, curiosamente, se eu tivesse que escolher um único disco instrumental para ouvir até o fim da vida - aquele velho papo da ilha deserta - não seria um disco do Zimbo Trio, mas do flautista Carlos Poyares. 


Em 1965, Carlos Poyares lançou pela Philips o seu primeiro disco solo. Ele já era relativamente conhecido no meio por integrar o formidável Regional de Canhoto, mas foi com Som de Prata em Flauta de Lata que começou a ser visto como um músico diferenciado. O grande barato do álbum está no fato de que Poyares gravou todas as faixas tocando uma flautinha de folha de flandres. É incrível a sonoridade que ele consegue arrancar do brinquedo, mas em nenhum momento a proposta soa infantil. É um disco leve sim, mas de muita técnica. Talvez por isso seja tão agradável aos ouvidos. O repertório é delicadíssimo, formado por músicas como Apanhei-te cavaquinho, Canarinho teimoso e Língua de preto. E o acompanhamento do Regional de Canhoto está acima da média.

Muita gente confunde este disco com o que o mesmo Carlos Poyares gravaria dez anos depois, pelo selo Marcus Pereira:


Som de Prata, Flauta de Lata foi lançado em 1975 e com um nome muito parecido ao do primeiro trabalho solo - daí a confusão que muitos fazem na hora de buscar informações sobre ele. Este disco também é ótimo, mas traz um repertório completamente diferente e um pouco mais "adulto", por assim dizer. Pedacinhos do céu (a minha preferida), André de sapato novo e Doce de coco estão entre as maravilhas do repertório.

Vale a pena escutar a flautinha de lata de Carlos Poyares. Ele teve essa ideia muitos anos anos de Pato Fu gravar Música de Brinquedo. A diferença é que o primeiro era um virtuose e fez uma obra de extrema qualidade musical. Taí um disco bacana de se ter em casa. 

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Choro pra bandolim


Tenho uma filha enterrada na Cacuia,
enterrada junto com milhares de olhares meus
que, sobre sua agonia, suplicavam que vivesse,
enterrada junto com outros meros números
nas estatísticas falsificadas
de nossa mortalidade infantil.

Tenho um futuro enterrado na Cacuia,
um deles,
enterrado
junto com os passeios de mãos dadas
e uma bicicleta verde
que não encostamos na relva suja
de nossas praças miseráveis.
Filha,
enquanto apodreces,
minha carne se retesa de amor
pelas meninas brasileiras.
Estou para sempre livre da necrofilia
porque fui abençoado por um instante
de luz em teus olhos escuros,
por um filete de sangue
de tuas narinas pequenas,
pela tua agonia sem metáforas
que me transformou nesse rebelde,
neste inconformado,
nesse ser agora diferente de você
visceralmente diferente de você
ansiosamente diferente de você
mortalmente diferente de você.

Às vezes, julgo te reconhecer
num carnaval, de clóvis na linha do trem,
num São João, com sobrancelhas pintadas de rolha,
no Maracanã, com a camisa do Vasco,
pivete, vendendo limão entre os carros,
mendiga, de pés descalços e barriga estofadinha de parasitas.

Às vezes, penso que ficaste soterrada
nos escombros de um barraco
durante a chuvarada,
ou que estavas entre as crianças
no circo que pegou fogo,
ma epidemia fatal de poliomelite,
de meningite, de burocratite,
na bala perdida,
no trem descarrilado,
no avião perdido por aí,
no bueiro aberto ou no escapamento de gás,
no fio de alta-tensão desencapado
ou no pronto-socorro do Andaraí,
onde tu entra cajá e sai caqui.
Mas, não. Estás enterrada na Cacuia,
ancorada na Ilha do Governador
e és terra, pó, lixo, talvez uma pequena
flor amarela que ninguém sabe o nome.

Dorme, filhinha, teu desperto sono de
coisa em transformação
que, no coração do Rio de Janeiro,
eu, teu pai e mau poeta,
velo ainda por tua lembrança
no momento derradeiro
até o interminável abraço que seremos
um dia: solo brasileiro.

(Aldir Blanc)