Mostrando postagens com marcador Música. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Música. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de junho de 2013

Por que as nossas crianças vaiaram o músico André Mehmari?


BATENDO CONTRA AS PAREDES
Sérgio Santos

Meu querido amigo e parceiro André Mehmari passou recentemente por um episódio que ilustra de forma categórica uma série de questões que se colocam a todos que se preocupam com a cultura, a educação, a arte e a sua propagação nos dias de hoje. André, além de privilegiado por um talento musical incomum, pianista, arranjador, compositor e multi-instrumentista, tem uma característica individual que o distingue: é um dos artistas que conheço que mais encarnam na própria obra (ou seja, muito além do mero discurso) a ausência de fronteiras entre as diversas formas de expressão artística. Transita com destaque, desenvoltura e verdade tanto pela música erudita quanto pela popular, tendo a capacidade de ser premiado e reconhecido em ambas. Isso, garanto, não é nada fácil!
Talvez por essa característica, pouca gente seria mais adequada que ele para fazer parte como convidado de um projeto musical e educacional, que aconteceu em um teatro em Campinas, para 600 jovens de 10-12 anos, alunos de escolas públicas. O projeto de excelentes intenções, se chama “Ouvir Para Crescer”. Segundo relato de André no Facebook, na apresentação havia, na sua primeira parte, um grupo musical e atores caracterizados de palhaços que apresentavam de forma lúdica as propriedades da linguagem da música, e até aí tudo transcorreu bem. Depois meu amigo entrou no palco para apresentar ao piano a obra de Ernesto Nazareth, e fazer com ela as pontes para outras formas de expressões musicais, querendo com isso ilustrar justamente a ausência de fronteiras que o preconceito impõe. Antes mesmo de começar, foi vaiado, xingado e ouviu impropérios, lagartos e cobras que continuaram durante toda a apresentação, vindos de uma platéia que, recordemos, tinha entre 10 e 12 anos! Estupefato, como não poderia deixar de ser, André levou a apresentação mecanicamente até o fim. Foram esses os fatos que, por ele expostos no Facebook, geraram centenas de comentários, além de um texto de José Miguel Wisnick em sua coluna de hoje no OGlobo.
Quero meter a minha colher, com a licença de meu parceiro querido. De onde vem essa reação tão contrastante com o espírito do evento? É preciso, sem justificar, compreender essa reação coletiva. Como bem disse Wisnick, André está longe de ser um cara cheio de mesuras e poses pseudo-eruditas, que poderiam sim antepô-lo à garotada. Pelo contrário, tanto no trato pessoal quanto no palco, é uma pessoa completamente simples, tendo inclusive uma verve acentuada de humor. Por inúmeras vezes falamos tanta besteira no palco juntos, que sugeri a ele em um de nossos shows que, caso a nossa música não desse resultado, poderíamos fundar uma dupla de stand-up, tão em moda, o que certamente iria nos render mais financeiramente que nossas composições, com o que a platéia, aliás, concordou de imediato. Portanto, não está em uma postura formal, rígida, ou em ares de superioridade, a origem da reação agressiva da platéia. Se não é por aí, algo necessariamente tem que ter motivado essa atitude, principalmente se pensarmos que a apresentação anterior ocorreu com tranquilidade.
O problema pode estar então em Nazareth. Há os que argumentaram que a atitude negativa se deveu ao choque de se querer impor a um segmento da sociedade um tipo de linguagem de arte distante dele. Nessa argumentação, a meu ver está a raiz do problema, e mais à frente direi o porque. Discordo veementemente dela! E minha experiência pessoal é o meu maior argumento. Já fui chamado para uma tarefa análoga a de André, há cerca de 10 anos, quando meu filho tinha exatamente essa idade das crianças de Campinas, na própria sala de aula dele, em uma escola particular de classe alta, tida como modelo na educação artística (por isso inclusive meu filho estudava lá). Imaginei uma conversa mais ou menos com a mesma perspectiva da de André, e quando comecei a tentar estabelecer um diálogo, a indiferença e depois a balbúrdia foram tamanhas (inclusive por parte de meu filho), que resolvi desistir e fui embora sem que ninguém ao menos percebesse. Essa indiferença foi para mim mais agressiva do que ter sido xingado, como meu amigo o foi. Conto o episódio porque ele mostra claramente que a questão ultrapassa a maneira de se lidar com uma determinada classe social. Ultrapassa também a questão de educação familiar, uma vez que sou a principal testemunha ocular da educação que meu filho recebe em casa. Há aí um componente que remete a um crescente desgaste e deterioração do ambiente escolar, onde inexiste o reconhecimento da autoridade (o que em nada se relaciona ao combate ao autoritarismo), e que levado às últimas consequências, gera as atuais agressões físicas a professores, alunos armados em sala de aula, etc. Embora ache que isso tenha pesado tanto no caso de André quanto no meu próprio, no entanto, não creio que entender a nossa questão se resuma a isso.
Reafirmo que a forma de ver a raiz do problema esteja na visão equivocada de quem sustenta que a atitude de André quis “impor” Nazareth a um segmento social “incapaz” de compreendê-lo. Vejamos: primeiramente, Nazareth não é dodecafônico, Nazareth não foi um alienígena de difícil compreensão, ou um compositor nascido na Monróvia. Nazareth retirou o material de sua criação da música do povo brasileiro, das ruas, do choro, das valsas, do ambiente musical popular de sua época. Sendo assim, a aberração está não em mostrar Nazareth ao povo, mas no fato desse mesmo povo não ser capaz – não de “compreender” – mas de se reconhecer minimamente em uma obra que se baseia na raiz de sua própria forma de expressão, a ponto de recusá-la com veemência. Se há algo de errado nesse enredo, o erro é esse! E, evidentemente a responsabilidade disso não está nas crianças! Algo tem que ter ocorrido no percurso de tempo de Nazareth até hoje, para fazer com que uma música que tenha vindo tão profundamente do povo não seja reconhecida por esse próprio povo como parte de sua simbologia. É como se eu não me visse em meu avô. E mais, como se eu jogasse uma pedra nele. André não errou ao tentar devolver essa informação tão rica a quem na verdade a originou. (Vou além, se ao invés de Nazareth fosse Chico Buarque, talvez os resultados fossem os mesmos). André acertou na mosca! Erramos fomos todos nós, que construímos uma sociedade imediatista, superficial, incapaz de se enxergar fora dos modelos de consumo que nos são impostos. Erramos na educação, na formação de um povo que tem raízes culturais absurdamente ricas em sua diversidade. Mais que isso, nos mantivemos no erro por nunca termos dado, enquanto sociedade, a mínima importância a toda essa riqueza. Erramos por termos sido barbaramente elitistas, reservando unicamente aos mais favorecidos o conhecimento desse patrimônio, e por termos permitido que a ganância da indústria tenha sido durante todos esses anos o único parâmetro de formação artística a que toda a sociedade tenha tido acesso. E, principalmente, vamos continuar errando, se continuarmos a não enxergar que é imperiosa a necessidade do contato da população com tudo o que de sublime, inteligente, original e genial já se fez artisticamente nesse país. Essa seria e será nossa única forma de corrigir o erro. E se o poder público não se preocupou e nem se preocupa em promover ações sistemáticas nesse sentido, as ações pontuais como essa têm que ser valorizadas! É preciso varrer essa idéia absurda, tacanha, reacionária, mesquinha, atrasada, de que dar ao povo a oportunidade de acesso ao que de melhor se produziu artisticamente é ser elitista ou paternalista.  
Elitista e covarde é essa visão tão em voga hoje em dia entre um punhado de intelectualóides de buteco, de que tudo é arte, e que a preocupação de fazer com que as classes menos favorecidas produzam a “sua” cultura já seja para elas o suficiente, e portanto prescindam do conhecimento, da informação, do ato consciente e generoso de olhar para trás para conhecer esse vasto mundo já construído, chamado cultura brasileira. Se é positivo o fato das camadas populares deixarem apenas de consumir cultura, passando também a produzí-la com suas próprias linguagens, isso não pode ser confundido com a negação da necessidade do saber. Se há sim um forte preconceito em sentido contrário – que nega as formas próprias de expressão vindas e exercidas pelo próprio povo – há por outro lado o equívoco cavalar dos que vêem nessa expressão uma “pureza” intocável, pelo simples fato de que tenha sido o povo que a gerou, sem perceber o tamanho da tarefa que é formar e educar na perspectiva da arte e da cultura vistas como trajetória histórica. A miopia dessa visão vai a ponto de se considerar imposição uma intenção inequivocamente generosa e justa como a de André Mehmari de colocar a semente de Nazareth no coração desses jovens, já que foi na origem popular deles que Nazareth tirou a semente de sua obra. Sob esse raciocínio, concordo integralmente com Wisnick, é preciso romper os muros e fossos nos dois sentidos. ”O povo sabe o que quer, mas o povo também quer o que não sabe”, frase lapidar do próprio Gilberto Gil. Eu acrescentaria: mesmo para não querer, o povo merece todo o saber.
Há inúmeros exemplos espalhados por aí de iniciativas cobertas de êxito ao se colocar a arte com perspectiva histórica em contato com populações desfavorecidas. Cito uma, na qual o próprio André tem participação: a Sinfônica Heliópolis, que me comoveu com a excelência de seus músicos, todos jovens oriundos de um ambiente socialmente degradado, tocando Stravinsky como gente grande na Sala São Paulo. Não se trata de dizer que Stravinsky é melhor que Naldo, ou de que o tal quadradinho de 8 valha menos que Ravel ou Jobim. Trata-se de que é preciso que se defenda ferozmente o direito de escolha entre um e outro. E, por mais que a população pobre felizmente hoje tenha mais a oportunidade de ter a “mão na massa” no fazer de suas próprias expressões culturais, infelizmente quem não tem a oportunidade do conhecimento jamais terá o direito da escolha, e sem escolha vai sempre estar alijado de sua liberdade mais fundamental. Trata-se aqui é dessa liberdade!

Meu caro André, parceiro e amigo do peito, às vezes nos chocamos com as paredes, mas nada que deva nos desanimar de nos armarmos das nossas picaretas sonoras para derrubá-las. Devagar, essas paredes hão de vir algum dia abaixo. É uma questão da física: a ressonância. O mero ruído do vento, e não a sua força, já foi capaz de derrubar a Ponte de Tacoma, nos EUA. O som tem lá o seu poder. Se vibrarmos nossa música com a frequência correta, ela pode entrar em ressonância com a parede e derrubá-la. Tentemos fazer a nossa parte. É o que de melhor podemos fazer.

domingo, 25 de novembro de 2012

Silvio Rodriguez une a América Latina no Luna Park


Buenos Aires, 23 de novembro de 2012
Mais de 7 mil pessoas, jovens em sua maioria, lotaram o estádio Luna Park, em Buenos Aires, para reverenciar a Silvio Rodriguez na noite do último dia 23 de novembro. Era o primeiro de dois shows que o cantor e compositor cubano faria na capital argentina, seis meses depois de ter se apresentado naquela cidade. “Uma tremenda surpresa para mim, voltar em tão pouco tempo”, declarou o artista, em suas primeiras palavras ao público que o recebeu de pé, aos gritos de “Cuba, Cuba, el pueblo te saluda!”.
A primeira impressão que Silvio transmite diante do microfone é a de ser um homem reservado, de gestos contidos e grande controle emocional. A partir do momento em que sobe ao palco, parece recusar a sua condição de astro da música popular latino-americana – o que fica patente em sua opção por se sentar em meio aos músicos que o acompanham, nunca à frente, raramente em posição de destaque. O show não é individual, mas coletivo – como o demonstra na singela atitude.  
No palco, a postura de Silvio Rodriguez se parece muito com a de seu amigo Chico Buarque. Poder-se-ia dizer que são irmãos de sangue, separados pelo mar do Caribe, dada a timidez (o termo mais apropriado não seria timidez, mas vá lá...) com que cumprem o roteiro dos shows. Falam pouco. Passam a maior parte do tempo sentados, protegidos pelo violão. E cantam olhando para o chão, ou para o vazio.
Para decepção dos jornalistas (sempre em busca de polêmicas envolvendo declarações de apoio a Cuba ou aos governos de esquerda da América do Sul), Silvio não utilizou o microfone para defender a presidenta Cristina Kirchner da recente onda de protestos de que tem sido alvo – apesar dos gritos de “Viva Cristina” e “Viva Nestor”, que vez ou outra espocavam na plateia, incitando-o a dizer algo. O fato é que, na manhã do show, o trovador foi recebido por Cristina K com honras de chefe de estado na Casa Rosada – e isto já foi motivo para críticas na imprensa. Não é preciso que se posicione diante das câmeras, pois sua obra é a expressão fiel do que ele pensa acerca da vida, do amor e da política.
Espécie de porta-voz não oficial da revolução cubana, suas passagens pelos países da América Latina costumam vir acompanhadas de protestos. Dessa vez, a direita argentina não foi à frente do teatro para queimar bandeiras de Cuba, mas vomitou seu ódio a Silvio na internet – como se o autor de canções que falam de amor e liberdade fosse responsável pelos crimes da “ditadura cubana”. A estes, Silvio nunca responde. Tem coisas maiores com que se preocupar.
Atento às letras das canções, o público aplaude efusivamente quando capta a mensagem política ou existencial escondida atrás de uma metáfora. Ele entende que a voz de Silvio não é apenas a voz de Cuba, mas de toda a América Latina, uma vez que canta dores semelhantes e sonhos iguais. Os argentinos, por óbvio, estavam em franca maioria no estádio Luna Park. Mas gente de toda a América Latina havia se deslocado de seus países para prestigiar um dos grandes ídolos geracionais do continente: vi colombianos, chilenos e uruguaios lado a lado, unidos pela bandeira da música. E o Brasil – até que outro compatriota presente ao show se manifeste – esteve representado por este que vos escreve.
Após uma salva de palmas que durou uma eternidade, Silvio Rodriguez, sob a sombra do elegante chapéu panamá que passou a usar nos últimos anos, avisou que estava resfriado e pediu ao público que perdoasse eventuais deslizes na voz. “Não se sintam culpados, pois a gripe veio comigo de Havana...”, informou, para depois arrancar risos da plateia: "...Mas o clima de Buenos Aires acabou de me destruir”. Chovera durante quase todo o dia.
Então, avisou que faria um show “mais intimista”, priorizando canções de seu disco mais recente, Segunda Cita. Abriu o concerto com uma sequência ainda pouco conhecida: Toma, La Guevarista, Tonada Del Albedrío (que arrancou aplausos pela frase “nenhum intelectual deve ser assalariado do pensamento oficial”) e a belíssima Carta a Violeta Parra. 
Só depois é que as músicas consagradas começaram a aparecer – e elas incendiaram as arquibancadas. Em coro, a multidão passou a acompanhar o cantor. A primeira foi Santiago de Chile, que versa sobre o golpe de estado contra Salvador Allende, em 1973. Depois vieram El escaramujo, La era está pariendo um corazón, Quien Fuera – na qual cita Chico Buarque –, El Necio e Canción del elegido – que muitos, equivocadamente, pensam ser uma homenagem a Che Guevara, quando na verdade é dedicada a Abel Santamaría, amigo de Fidel torturado até a morte pela ditadura de Fulgêncio Baptista.

Antes de cantar San Petersburgo, uma das canções mais novas, Silvio explicou que ela nasceu de uma conversa casual com o escritor Gabriel Garcia Marquez durante um voo de Cuba para o México no qual eram os únicos passageiros. “Gabo me disse que, às vezes, vinham-lhe à mente ideias curtas, que não podiam ser aproveitadas em seus contos, mas que ele gostaria de aproveitá-las em forma de canções – se soubesse fazer canções. Passamos a viagem toda filosofando sobre isto”, contou.
Meses depois, Silvio desenvolveu uma dessas pequenas ideias anotadas por Gabriel Garcia Marquez – sobre uma noiva abandonada no dia do casamento –, misturando-a com elementos da literatura russa, mais propriamente de Alexander Pushkin, um de seus autores favoritos. O resultado é uma canção emblemática, repleta de imagens que se sucedem, aparentemente desvinculadas entre si (como num sonho), mas que depois encontram um sentido comum no arremate final.
Toda canção de Silvio Rodriguez é um hino individual ou coletivo. Mas nada supera a força simbólica das canções que produziu nos anos 60 e 70. Estas foram as escolhidas para encerrar o show: primeiro veio Angel para un final. Depois, Oleo de mujer con sombrero, cuja execução foi demasiadamente rápida para a comoção geral que seus primeiros acordes provocaram na plateia. O show chegava ao fim.
Mas ainda faltava um clássico inquestionável no programa. Então, depois de se despedir pela primeira vez e se recolher ao camarim, o trovador voltou ao palco para cantar, acompanhado de 7 mil vozes, aquela que talvez seja a sua melhor canção – ou, pelo menos, uma das melhores: Ojalá, imortalizada também por Mercedes Sosa.
Silvio voltaria quatro vezes mais. Em uma delas, tomou a liberdade de cantar uma canção infantil cubana. O público já estava em suas mãos e nenhuma das partes parecia disposta a ir embora. Foi preciso que a organização do Luna Park acendesse as luzes do estádio, depois do quinto bis, para que o show finalmente tivesse um fim, após duas horas e meia de música. Foi quando Silvio sacou uma máquina fotográfica do bolso e tirou uma foto da plateia. “Viva Cuba!”, gritou o povo. “Viva a Argentina!”, devolveu o cantor. 
Lá fora, a Avenida Corrientes recebia uma brisa refrescante, vinda de Puerto Madero, e tive que tomar um Fernet Cola para assimilar aquela noite. 
El Necio 
Canción del elegido

sábado, 17 de novembro de 2012

As moças da Paraíba


A música brasileira é uma das mais ricas do mundo, tendo em vista a sua imensa variedade de ritmos regionais, o timbre de seus instrumentos, a poesia espontânea que brota de seus artistas populares e a permanência atemporal de sua cultura. A música brasileira, esta fortaleza, atravessa os séculos sem nunca se dobrar, apesar de estar quase sempre proibida na programação das rádios e das TVs comerciais.

De Norte a Sul do Brasil, a música regional resiste às pressões das multinacionais do disco e encontra brechas para se fazer ouvir, independente dos desejos da indústria cultural. Não raro, a música brasileira subverte a lógica do mercado e se impõe nos grandes palcos, levada pelas mãos do povo que não vende a própria cultura.

Há pouco conheci umas moças da Paraíba que me deixaram profundamente emocionado. Amo a cultura do Nordeste – detentora de nossa música mais resistente. Ela é capaz de sobreviver ao tempo como um patrimônio único da identidade nordestina – e brasileira. E dentro desta cultura fantástica que é a nordestina, a paraibana talvez seja a mais intensa, com seus xaxados, seus cocos-de-roda, suas cirandas, suas quadrilhas e forrós...

O paraibano é um povo radicalmente ligado às suas raízes – e isso pode ser percebido inclusive nas escolas locais, onde o folclore é cultivado, não como matéria de estudo, mas como forma viva de se expressar perante o mundo. A dança, a poesia e a música são parte indissociável da formação do paraibano desde a mais tenra idade. Isto fica evidente quando vemos uma apresentação das meninas do grupo Clã Brasil, por exemplo. 

Fiquei um pouco surpreso ao descobrir que o grupo tem mais de dez anos de estrada. E mais ainda: que já se apresentou em países como Alemanha e Estônia, gravou três DVDs e dividiu palco com artistas consagrados como Sivuca, Alceu Valença e Dominguinhos em shows pelo Nordeste. A alegria pela descoberta foi acompanhada por um dedo de decepção: como é que eu nunca tinha ouvido falar desse grupo, mesmo escrevendo sobre música brasileira desde 2001?

No fole de Lucy Alves – herdado do bisavô Dedé do Cantinho – e em sua voz agreste, moram referências legítimas (não só musicais) de Jackson do Pandeiro, Gordurinha, Antônio Barros, Jacinto Silva, Luiz Gonzaga, Marinês, Mestre Vitalino, Lampião e Maria Bonita. Na postura da líder do grupo se percebe a defesa intransigente da tradição mais cara ao povo de Itaporanga (terra das moças) – como podemos apreender nesta música, O Galo, de autoria de seu antepassado:


As meninas do Clã Brasil são uma grata realidade. É perceptível que ainda têm muito a crescer musicalmente, mas louve-se a posição que já ocupam no Nordeste: a de um grupo que encarna – em oposição aos falsos artistas “universitários” que usam em vão o santo nome do forró para fazer sucesso – o melhor do povo de seu lugar. E que aos poucos vai levando este mesmo lugar para os cantos mais distantes do País.

Querem afastar o Brasil dos brasileiros, mas não conseguirão. E não conseguirão porque sempre há de nascer no sertão meninas como Lucy Alves, suas irmãs Laryssa e Lyzete, e sua amiga Fabiane (as integrantes do quarteto), dispostas a tocar em frente a tradição, respeitando os mais velhos sempre, mas sem deixar de dar à música sua bem-vinda contribuição de juventude – é o que fazem ao remoçar Feira de Mangaio, obra-prima de Sivuca, naquela que foi uma das últimas apresentações em vida do sanfoneiro:


As moças da Paraíba – e como são bonitas, as moças... – enchem o meu coração de orgulho e esperança no futuro do Brasil.



quinta-feira, 12 de julho de 2012

Discos bacanas - 1 : Som de Prata em Flauta de Lata

Gosto, mas não sou um profundo conhecedor da música instrumental brasileira. Neste universo tão vasto de timbres diversos e instrumentistas geniais, o Zimbo Trio tem um espaço de destaque no meu acervo. Acho que poucas coisas no mundo conseguem ser tão estimulantes e modernas quanto o som do Zimbo Trio. Porém, curiosamente, se eu tivesse que escolher um único disco instrumental para ouvir até o fim da vida - aquele velho papo da ilha deserta - não seria um disco do Zimbo Trio, mas do flautista Carlos Poyares. 


Em 1965, Carlos Poyares lançou pela Philips o seu primeiro disco solo. Ele já era relativamente conhecido no meio por integrar o formidável Regional de Canhoto, mas foi com Som de Prata em Flauta de Lata que começou a ser visto como um músico diferenciado. O grande barato do álbum está no fato de que Poyares gravou todas as faixas tocando uma flautinha de folha de flandres. É incrível a sonoridade que ele consegue arrancar do brinquedo, mas em nenhum momento a proposta soa infantil. É um disco leve sim, mas de muita técnica. Talvez por isso seja tão agradável aos ouvidos. O repertório é delicadíssimo, formado por músicas como Apanhei-te cavaquinho, Canarinho teimoso e Língua de preto. E o acompanhamento do Regional de Canhoto está acima da média.

Muita gente confunde este disco com o que o mesmo Carlos Poyares gravaria dez anos depois, pelo selo Marcus Pereira:


Som de Prata, Flauta de Lata foi lançado em 1975 e com um nome muito parecido ao do primeiro trabalho solo - daí a confusão que muitos fazem na hora de buscar informações sobre ele. Este disco também é ótimo, mas traz um repertório completamente diferente e um pouco mais "adulto", por assim dizer. Pedacinhos do céu (a minha preferida), André de sapato novo e Doce de coco estão entre as maravilhas do repertório.

Vale a pena escutar a flautinha de lata de Carlos Poyares. Ele teve essa ideia muitos anos anos de Pato Fu gravar Música de Brinquedo. A diferença é que o primeiro era um virtuose e fez uma obra de extrema qualidade musical. Taí um disco bacana de se ter em casa. 

quarta-feira, 28 de março de 2012

Sonzêra - 2

Um dos mais bacanas e esquecidos vanguardistas da música brasileira é o paulistano Walter Franco, que fez relativo sucesso nos anos 70, sobreviveu no início dos 80 e depois sucumbiu ao ostracismo. Seu último sucesso, Canalha, integrava o ótimo álbum Vela Aberta, de 1979. Esta música (um rock e tanto!) foi defendida aos berros no Festival da Tupy e vaiada pelo público, que não entendeu imediatamente o teor crítico da obra e o protesto presente na própria interpretação. Aumentem o volume das caixinhas de som, seus canalhas:

domingo, 18 de março de 2012

Sonzêra - 1

Deixa eu Dizer (Ivan Lins / Ronaldo Monteiro) foi um dos maiores sucessos da cantora Claudia, carioca, revelada no Festival Fluminense da Canção, em 1969, com Razão de Paz para Não Cantar (Eduardo Lage / Alésio de Barros). Em 1983 atuou no musical Evita, que ficou dois anos em turnê mundial. Tem mais de 20 discos gravados ao longo da carreira.

sábado, 3 de março de 2012

Um silêncio chamado Tenório

No último dia 4 de janeiro, um homem foi preso em Santa Catarina, acusado de estelionato depois de tentar aplicar um golpe na região Oeste do estado. Logo surgiram as suspeitas de tratar-se de um ex-integrante do temido Serviço de Informação Naval da Marinha Argentina durante a ditadura militar que ensangüentou o país vizinho nos anos 70 e 80. Não demorou para a prisão de Claudio Vallejos repercutir na Argentina, que agora pede sua extradição.

Em 1986, em entrevista à revista Senhor (nº 270), Vallejos admitiu ter participado de sessões de tortura contra oponentes do regime e do seqüestro do pianista brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Junior (foto), conhecido no meio musical como Tenorinho. Na ocasião, março de 1976, o músico se apresentava em Buenos Aires, acompanhando Vinícius de Moraes e Toquinho. Até hoje o seu paradeiro é desconhecido.  

A notícia da prisão do ex-torturador reacende a esperança de que o episódio envolvendo o artista brasileiro possa ser elucidado de uma vez por todas. Sabe-se, com certeza, que Tenorinho foi torturado barbaramente e morto com um tiro à queima-roupa. O destino de seus restos mortais, no entanto, continua sendo um mistério, bem como a identidade de seus algozes. Abaixo, resgato um pouco desta história. Para que Tenório não caia no esquecimento, como querem aqueles que o mataram.

Buenos Aires, 1976

Na noite de 18 de março de 1976, o pianista Francisco Tenório Júnior faria, sem saber, a última apresentação de sua vida. Depois de acompanhar Vinicius de Moraes e Toquinho no Teatro Grand Rex, em Buenos Aires, o músico foi para o Hotel Normandie, onde estava hospedado. Queria descansar um pouco, pois estava com uma leve dor de cabeça.

Às três horas da manhã, Tenório levantou-se e saiu. Antes, teve o cuidado de deixar um bilhete colado na porta do quarto de Vinicius: “Vou sair para comprar cigarros e um remédio. Volto logo”. Foram suas últimas palavras antes de descer ao inferno.

Sem que ninguém pudesse imaginar, o general Jorge Rafael Videla preparava em sigilo o golpe militar que, dias depois, deporia a presidenta Isabelita Perón. Por isso, a polícia secreta argentina já estava nas ruas caçando comunistas. E Tenório Júnior era o homem errado, no lugar errado.

Ao dobrar uma esquina da Avenida Corrientes, o músico foi abordado por um grupo de militares. Sua barba e seus cabelos compridos o levaram a ser confundido com um militante de esquerda. Informou que era pianista de Vinicius de Moraes, mas de nada adiantou: o poeta, autor da Garota de Ipanema, era tido como um artista “subversivo” no país e os agentes o fizeram entrar no carro.

No próximo dia 18, fará 36 anos que o músico brasileiro desapareceu em Buenos Aires. Poucos, porém, são os que se lembram do episódio, que permanece envolto em nuvens de fumaça e de um conveniente silêncio da mídia e do Estado brasileiro. Segundo o produtor cultural argentino Juan Trasmonte, que pretende fazer um filme sobre a história do pianista, Tenório Júnior desapareceu duas vezes: “A primeira nas mãos dos seus algozes e a segunda no silêncio do Brasil”.

Para Trasmonte, surpreende o fato de a sociedade brasileira desconhecer ou demonstrar pouco interesse no caso: “Tenório não somente era um cidadão brasileiro desaparecido na Argentina, mas um músico que tinha viajado para acompanhar ninguém menos que Vinicius de Moraes”, diz.

Frederico Mendonça de Oliveira, o guitarrista Fredera, defende a tese de que o assassinato do músico foi resultado de uma operação muito bem articulada entre os órgãos de repressão brasileiros e argentinos. “Eles sabiam que Tenorinho era inocente, mas naquele tempo era importante arrancar nomes, mostrar que poderiam tirar leite de pedra”, afirma.

Fredera, que tocou ao lado de artistas como Gilberto Gil e Gonzaguinha, critica a omissão da classe artística no livro O Crime contra Tenório (Atenas Editorial, 1997). Segundo ele, todos preferiram fingir que nada havia acontecido. Apenas Vinicius e Ferreira Gullar — que na época estava exilado em Buenos Aires — empreenderam uma busca desesperada e inútil. Ninguém sabia de nada.

Dez anos após o desaparecimento do músico, quando as esperanças da família e dos amigos estavam quase esgotadas, um ex-integrante do serviço secreto argentino veio ao Brasil com uma série de dossiês debaixo do braço. Seu nome era Claudio Vallejos e havia atuado como torturador durante o regime. Ele estava entre os homens que abordaram Tenório Júnior naquela madrugada de 18 de março.

Segundo os documentos secretos vendidos à imprensa, Tenório foi levado para a Escuela de Mecánica de la Armada, a ESMA, que funcionaria mais tarde como uma espécie de campo de concentração para prisioneiros políticos. Suspeito de manter ligações com grupos subversivos na Argentina, o pianista passou pela “churrasqueira” (cama de molas usada para aplicar choques elétricos) e por sessões de afogamento.

Após nove dias sob tortura, Tenório Júnior era um morto-vivo. Como a repressão não poderia soltá-lo naquelas condições, decidiu matá-lo com um tiro na cabeça e enterrá-lo em uma vala comum. O assassinato foi consumado no dia 27 de março de 1976. O Brasil perdia um de seus músicos mais talentosos e o governo não teve sequer a dignidade de comunicar o fato à família.

Somente em 2006 o Estado brasileiro reconheceu ter “feito muito pouco” para localizar e devolver à família os restos mortais de Tenório Júnior. Trinta anos depois, sua mulher e filhos foram, finalmente, indenizados por danos morais e materiais. Ainda assim, o mistério sobre o paradeiro do pianista continua. Quem conviveu com Tenório tem a sensação de que ele ainda está vagando, a procura de cigarros, pela Avenida Corrientes.


[ Tenório Jr. gravou um único disco, pelo qual recebeu elogios da crítica. Era considerado um dos mais talentosos nomes do jazz brasileiro. Ouçam acima a faixa Nebulosa. ]