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segunda-feira, 8 de julho de 2013

Pátria

Quando eu entrei no meio do mato,
Onde os cipós não me deixavam ir além,
Fiz com um gomo de taquaruçú
Um porta voz.
E gritei bem alto:

"Páááátria!!! Eu quero te ver!!!"

Pois me haviam contado
Que era ali que morava
Numa casa de arvores,
Gritei tão alto
Que minha voz abriu uma picada
No meio do mato.

Gritei tão alto
Que a algazarra das araras
E os guinchos dos sagüis
Não conseguiram abafar a minha voz.
Que lá foi, tropeçando nos cipós,
Chamar a Pátria que velava.
Depois o silêncio, que é um índio verde,
Veio, com os pés de musgo
E mãos de paina,
Aquietar as folhas que falavam,
Veio cercar o vento que assobiava.

Depois o mato vibrou, como vibra
Quando passam as antas pesadas
E varas de caitetús.
Houve um estalar de gravetos e de taquaras,
E até as araras se calaram pasmadas...
E aos meus olhos maravilhados,
Surgiu uma índia vestida de penas,
que tinha no corpo moreno
a altivez dos palmitos
e que trazia nos olhos oblíquos e claros,
a alegria de um dia de sol.
E ficou, espantada, a olhar pra mim...
E fiquei deslumbrado com tanta beleza,
Pois não me haviam contado
Que minha Pátria era tão bonita assim.


(Pátria - Vinícius Méier)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Choro pra bandolim


Tenho uma filha enterrada na Cacuia,
enterrada junto com milhares de olhares meus
que, sobre sua agonia, suplicavam que vivesse,
enterrada junto com outros meros números
nas estatísticas falsificadas
de nossa mortalidade infantil.

Tenho um futuro enterrado na Cacuia,
um deles,
enterrado
junto com os passeios de mãos dadas
e uma bicicleta verde
que não encostamos na relva suja
de nossas praças miseráveis.
Filha,
enquanto apodreces,
minha carne se retesa de amor
pelas meninas brasileiras.
Estou para sempre livre da necrofilia
porque fui abençoado por um instante
de luz em teus olhos escuros,
por um filete de sangue
de tuas narinas pequenas,
pela tua agonia sem metáforas
que me transformou nesse rebelde,
neste inconformado,
nesse ser agora diferente de você
visceralmente diferente de você
ansiosamente diferente de você
mortalmente diferente de você.

Às vezes, julgo te reconhecer
num carnaval, de clóvis na linha do trem,
num São João, com sobrancelhas pintadas de rolha,
no Maracanã, com a camisa do Vasco,
pivete, vendendo limão entre os carros,
mendiga, de pés descalços e barriga estofadinha de parasitas.

Às vezes, penso que ficaste soterrada
nos escombros de um barraco
durante a chuvarada,
ou que estavas entre as crianças
no circo que pegou fogo,
ma epidemia fatal de poliomelite,
de meningite, de burocratite,
na bala perdida,
no trem descarrilado,
no avião perdido por aí,
no bueiro aberto ou no escapamento de gás,
no fio de alta-tensão desencapado
ou no pronto-socorro do Andaraí,
onde tu entra cajá e sai caqui.
Mas, não. Estás enterrada na Cacuia,
ancorada na Ilha do Governador
e és terra, pó, lixo, talvez uma pequena
flor amarela que ninguém sabe o nome.

Dorme, filhinha, teu desperto sono de
coisa em transformação
que, no coração do Rio de Janeiro,
eu, teu pai e mau poeta,
velo ainda por tua lembrança
no momento derradeiro
até o interminável abraço que seremos
um dia: solo brasileiro.

(Aldir Blanc)

domingo, 4 de março de 2012

O poeta Affonso Manta

Affonso Manta Alves Dias (foto) foi um dos poetas brasileiros mais originais de seu tempo, conquanto em parte desconhecido. Nascido em Salvador, a 23 de agosto de 1939, foi guia em museu de arte sacra, repórter do Diário de Notícias e, posteriormente, inspetor da Seção de Reclamações dos Correios e Telégrafos, onde se aposentou. Era, pela via paterna, primo de quarto grau do grande poeta Castro Alves, embora nunca tenha feito proselitismo em cima disso. Levou uma vida modesta, de funcionário público, e ajudou com seus proventos muitos desvalidos em Poções, cidade baiana em que residiu nos seus últimos trinta anos. Publicou vários livros de poesia, dentre eles A Cidade Mística e Outros Poemas (1980), Retrato de um Poeta (1983), No Meio da Estrada (1991) e O Estranho na Terra (1995). Sua poesia foi construída em cima da ironia e da farsa, constituindo o autor em um crítico mordaz do cotidiano medíocre, do provincianismo e de todas as formas de autoritarismo. Morreu a 3 de dezembro de 2003, em sua casa na Rua Cel. Alberto Lopes, acompanhado apenas de um irmão médico e de uma cunhada. Sua obra ainda aguarda o devido reconhecimento por parte da crítica, dos leitores e dos editores -- todos os seus livros estão esgotados, nunca foram relançados e mesmo nos sebos são artigos de luxo (há anos procuro vestígios de Affonso Manta em todo o Brasil, sem sucesso).

O Realejo de Vinho
Para Sólon Barreto

Para quem me queira ouvir:
Sou um homem aos frangalhos.
Parte por culpa de tudo.
Parte por culpa de nada.

E digo mais ao casual
Ouvinte deste relato:
Não sendo herdeiro nem rico,
Não tenho crédito na praça.

Amo as japonas escuras,
De mangas e tudo vasto.
E os colarinhos puídos
Uso desabotoados.

Ao pôr a minha gravata,
Fabrico um laço bem largo.
E acho triste andar com ela.
E, mais tristes, as gravatas.

Eu nunca faço questão
Que uma roupa seja cara.
Mas, ampla: e, sendo possível,
Com certo ar desesperado.

Eu prefiro, aos bons charutos,
Um velho e forte cigarro.
E odeio fumar cachimbo.
Pois sou muito angustiado.

No mais: um vento me agita,
Interior e largado,
E me devasta os cabelos,
Rosto, sorriso e palavra.

Opus 7
Soneto ao poeta Adelmo Oliveira

Embora eu sofra muito neste duro
E trágico planeta sublunar;
Embora eu me debata contra o muro
De uma angústia constante, regular,
Eu creio na bandeira do futuro.
Eu creio numa guerra popular.
Eu creio no horizonte largo, puro,
Do povo no poder a governar.
Pois a tristeza que meu peito invade
Não me impede de amar a liberdade.
Amo-a, ao invés, com maior devoção.
A liberdade que é meu arrebol,
"Esposa do porvir, noiva do sol"
Como disse Castro Alves, com razão.

Lá vai Affonso Manta

Com estrelas na testa de rapaz,
Com uma sede enorme na garganta,
Lá vai, lá vai, lá vai Affonso Manta
Pela rua lilás.

Coroa de alumínio sobre o crânio,
Lapelas enfeitadas de gerânios
E flechas no carcaz.

Manto florido de madapolão,
Bengala marchetada de latão,
Desfila o marechal,

O rei da extravagância, o sem maldade,
O campeão da originalidade
O peregrino astral.