segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Campinas perde a histórica Fábrica de Chapéus Cury


Bruno Ribeiro

Filtrada pelos vidros empoeirados das janelas, a luz da manhã é pálida – de uma palidez de fotografia antiga – e escorre dos vãos entre as telhas, em filetes que conferem ao galpão um interessante efeito cênico. Neste cenário, que poderia ter saído de um filme sobre os primórdios da revolução industrial, dezenas de operários trabalham em meio ao vapor das máquinas e aos sons do entrechoque de ferros.

O cheiro do ambiente é carregado, mas não desagradável. Há no ar uma mistura de lã de ovelha, madeira velha, umidade e ferrugem. “É o cheiro do tempo”, diz Antônio Máximo Alves, 66 anos, há 27 como moldador de chapéus. “Hoje faço 350 moldes por dia, mas já cheguei a fazer 600”, relembra. “Na minha juventude, todo homem tinha o seu chapéu. Ninguém saía de casa sem ele”. 

Antônio, que trabalha como fotógrafo de casamento nos fins de semana, é um dos funcionários mais antigos do lugar depois que os mais velhos – alguns com mais de 50 anos de fábrica –, tiveram de se aposentar ou ser demitidos. “Demissão aqui sempre foi coisa rara”, comenta, confirmando os rumores de que uma grande mudança está por vir. 


Estamos em Campinas, mais especificamente na Rua Barão Geraldo de Resende, n ° 142, no bairro Guanabara, onde está localizada a quase centenária Fábrica de Chapéus Cury, com seus 5,3 mil metros quadrados a ocupar praticamente um quarteirão inteiro – não fosse a presença de um botequim de esquina onde os operários costumam tomar o café da manhã antes de pegar no batente. 

Mundialmente famosa por ter criado o chapéu que o ator Harrison Ford imortalizou nos filmes da série “Indiana Jones”, a Cury é vista pelos campineiros sob um prisma local e mais relevante: ela é a memória viva do tempo em que a cidade apenas começava a desenvolver a sua indústria.

Com mais de um milhão de habitantes e conhecida por seu polo industrial e tecnológico, Campinas é a maior cidade do interior de São Paulo. Por isso, surpreende que uma fábrica como a Cury ainda exista, na base da produção artesanal e abastecida por uma caldeira, como no início do século passado.


Para tentar descobrir o segredo desta longevidade, pergunto a Paulo Cury Zakia, 54 anos, diretor comercial da empresa: “Como, afinal, a fábrica sobreviveu ao tempo, à modernização, à concorrência, às sucessivas crises econômicas, à especulação imobiliária e ao fim do chapéu como item obrigatório no vestuário do brasileiro?”. 

Em sua resposta, dá-me em primeira mão a notícia inesperada: “Sobrevivemos graças à força de vontade e ao idealismo; mas não dá mais para continuarmos presos ao passado”, anuncia desde seu amplo escritório situado no segundo andar do prédio. Até o fim de 2012, a antiga sede da Fábrica de Chapéus Cury estará desativada e seu destino será idêntico ao de outros tantos imóveis com valor histórico e cultural que desapareceram em Campinas: o chão.

Ele ressalta, no entanto, que a demolição do prédio datado de 1920 não significará a morte da Fábrica de Chapéus Cury. “Estamos transferindo nossas instalações para um local moderno e mais adequado, na cidade de Jaguariúna”. A mudança, segundo o diretor, era imperativa. “Temos de ser mais competitivos ou seremos engolidos”, justifica. “Até hoje, nos mantivemos heroicamente, assumindo riscos e prejuízos em benefício dos funcionários. Mas um empresário tem de ser racional”, argumenta.


O diretor comercial prefere não dizer o que será construído na área ocupada pela fábrica. “Não gostaria de revelar agora, para não atrapalhar o negócio”, diz. Seu plano imediato, após a demolição, é publicar um livro de fotografias e poemas dedicados à Cury. “É uma forma de preservar as lembranças deste lugar e de tudo o que ele representou para a cidade”, explica. Material há de sobra: ao longo de sua história, dezenas de ensaios fotográficos foram realizados no interior da fábrica. 

Do alto de seus 88 anos, dos quais 70 dedicados à chapelaria, o presidente Sérgio Cury Zakia, tio de Paulo, não guarda segredos quanto à mudança de rumo: “A especulação imobiliária é muito forte e agressiva. É impossível não ceder. Vão construir edifícios aqui, vários”, revela.

Sugiro uma última caminhada com o presidente pelas galerias da fábrica. Ele apanha o inseparável chapéu de feltro marrom sobre a mesa de seu gabinete e apoia-se em meu braço para descer a longa fileira de escadas. No trajeto, cumprimenta os operários. Ele os conhece todos pelos nomes. No ano passado, eram 130. Hoje, apenas 69. “No auge da nossa produção, entre as décadas de 1940 e 1960, chegamos a ter 800 funcionários contratados”, recorda Sérgio.


As recentes demissões não parecem ter sido uma decisão fácil. “Alguns dos demitidos eram meus amigos; íamos caçar e jogar futebol quando não éramos tão velhos”, comenta, com um sorriso discreto. De fato, muitos dos funcionários remanescentes têm mais de 20, 25 anos de carteira assinada. “As pessoas entravam para trabalhar comigo e iam ficando. Nunca tive o costume de demitir o pessoal”, diz.

Para o velho Zakia, a culpa não é só da especulação imobiliária. É também dos chineses: “Eles estão comprando todo o pelo de lebre que há no mundo – e este era a nossa principal matéria-prima. O pelo de lebre sumiu do mercado e estamos tendo que nos adaptar e reinventar nossos produtos. Agora, somos obrigados a usar quase que exclusivamente a lã para fabricar os chapéus, mas não é a mesma coisa”, lamenta.

Sérgio Cury Zakia é filho de libaneses. O avô era gerente de uma fábrica de tecidos no Líbano e foi o primeiro membro da família a vir para o Brasil, em 1904. Embarcou na terceira classe de um navio e desceu no porto de Santos, em busca de uma vida melhor. Quatro anos depois, enviou dinheiro para que os filhos pudessem se juntar a ele. O pai de Sérgio se estabeleceu em Itu – onde ele nasceria a 25 de fevereiro de 1924. “Eu tinha nove anos quando papai me disse: ‘Sérgio, o mercado de chapéus é o futuro; vamos para Campinas trabalhar na fábrica do Dr. Miguel. Isso foi em 1934”.


Dr. Miguel era Miguel Vicente Cury, um caixeiro de loja que se tornou duas vezes prefeito de Campinas (1948 a 1951 e 1960 a 1963) e hoje dá nome ao viaduto mais importante da cidade. “Ele era meu tio, irmão da minha mãe. O que mais gostava de fazer na vida era reformar e vender chapéu. Nem ele sabia por que gostava tanto de chapéu. Acabou comprando a fábrica, a preço de banana, de uns alemães que estavam fugindo do Brasil”, conta Sérgio.

Miguel Vicente Cury fundou a Fábrica de Chapéus Cury em 1920, sem imaginar que ela se tornaria uma das mais importantes do País e da América Latina. “Quando comecei a trabalhar aqui, aos 18 anos, ela já era uma empresa respeitada, que produzia e exportava chapéus. Meu pai e eu tivemos que aprender a fazer um pouco de tudo, porque meu tio era muito exigente. Mas, como nunca aprendi a lidar com mecânica, acabei assumindo a parte administrativa”, lembra.

No decorrer dos anos, a empresa foi aumentando sua produção e adquirindo máquinas mais modernas, provenientes da Europa. Quando o chapéu começou a cair em desuso nas grandes cidades brasileiras, a Cury passou a investir pesado no mercado externo. Hoje, 30% da produção são destinados à exportação, tendo nos Estados Unidos e na Bolívia seus maiores compradores. “O que não significa que o brasileiro tenha deixado de usar o chapéu”, destaca Paulo Cury. “Nossos grandes clientes estão no Sul e no Nordeste. O gaúcho e o nordestino ainda usam bastante os modelos tradicionais; já em Goiás e Mato Grosso vendemos mais o modelo country”.


Os números da empresa desmentem a tese de que não há mais mercado para o chapéu: por mês, a Cury produz entre 20 e 25 mil chapéus. Em 2010, faturou 30 milhões de reais. “O segredo está em ir se adaptando ao gosto do consumidor, que muda com o tempo”, explica o diretor comercial, cuja expectativa é ampliar ainda mais esta cifra a partir da mudança para a nova sede, em Jaguariúna.

Paulo Zakia não sabe dizer o que virá pela frente. A única certeza é que um dos chapéus mais famosos do mundo, fabricado por ele, continuará sendo a “menina dos olhos” da Cury. “Quando os filmes do Indiana Jones voltam a ser comentados, as vendas deste modelo sobem”, afirma. Ele se refere ao modelo de chapéu criado especialmente para o personagem principal do filme “Indiana Jones e os Caçadores da Arca Perdida” (1981), que se tornou um clássico do cinema.

“Um de meus clientes nos Estados Unidos era patrocinador do filme e me pediu que criasse um chapéu para um herói de aventura. Ele descreveu o personagem, mas não disse que o ator seria o Harrison Ford e nem que o filme seria aquele. Só descobri quando fui ao cinema e vi o meu chapéu na tela”, relembra. De lá para cá, a Cury fabricou aproximadamente 500 mil unidades do modelo Indiana Jones – com licença para importá-lo a vários países.


Nadir Furlan, subencarregada do setor de costura, orgulha-se de trabalhar na “fábrica do chapéu do Indiana Jones”. Segundo ela, é assim que muita gente identifica a Cury. “Eu sei que ela não é só isso. Essa é apenas uma parte da história. Mas também é a parte que fez a gente ficar conhecido no mundo todo, não é?”. Atento para o fato de a costureira se referir à empresa como “a gente”. Pergunto o que a Cury representa para ela. “Eu costumo dizer que isso aqui é a minha segunda família”, diz.

Nadir começou a trabalhar na fábrica em 1982 e nunca pensou em sair. Duas de suas irmãs trabalham com ela, mas em setores distintos. “Eu sempre fui costureira. Já cheguei a costurar dois mil chapéus por dia, hoje são cerca de 800”. Lembra que o número de costureiras também foi bem maior. “Há dois anos, havia 50 mulheres pedalando as máquinas. Hoje somos onze. É que costureira é uma profissão em extinção”, avalia.

Nadir acredita que sentirá falta do prédio em que trabalha há tantos anos. “Eu seria capaz de andar de olhos vendados aqui dentro. Conheço cada canto”. Ao mesmo tempo, manifesta interesse e curiosidade pelo novo. “Se for para o bem de todos e eles quiserem continuar contando comigo, por que não?”.


Antônio Máximo, o moldador de chapéus, não sabe se será aproveitado na nova fase da empresa. “Enquanto não me mandarem embora, continuarei trabalhando, porque gosto muito. E se tiver que ir para outro lugar, tudo bem. A gente tem que trabalhar de qualquer forma. É a vida”, diz.

Ao meio-dia em ponto, soa o apito da chaminé de tijolos – o único elemento, junto à fachada do prédio, tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Artístico e Cultural de Campinas (Condepacc). A chaminé sobreviverá à demolição.

Para os operários que restaram, este talvez seja o último horário de almoço na velha Fábrica de Chápeus Cury. Ou o primeiro dos últimos, antes que sejam transferidos para a nova sede ou voltem em definitivo para suas casas. O desaparecimento do imóvel não será o fim do mundo; mas certamente marcará o fim de um mundo cada vez mais raro e distante.  

(Reportagem originalmente publicada na revista Brasileiros (Novembro/2012), com fotos de Adriano Rosa. No blog a maioria das fotos pertence a Heleno Clemente.)










25 comentários:

  1. Fico triste pelo episódio. Meu pai, um senhor de 86 anos gosta dos chapéus sociais; usou muito chapéus Cury, continuaria usando, mas muitas vezes encontramos dificuldades em encontrá-lo. Ele (meu pai), acaba comprando de outras marcas, mas não o agrada.
    Desejo sorte a vocês no novo prédio e que continuem tendo sucesso, pois é muito merecido.

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  2. Chapéus Cury faz parte da minha vida. Meu pai vendeu chapéus durante muito tempo. Inicialmente foi representante da fábrica de chapéus Mangueira. Depois da Manzoni, e por último, chapéus Cury. Ainda tenho guardado seu último Panamá, de 1986.

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  3. Leia_se Ramenzon i no lugar de Manzoni.

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  4. cury foi pra bolívia explorar as índias de lá, pois a china é mais longe

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  5. Deviam pelo menos pagar os funcionários que deram sangue durante vários anos ali

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  6. Ainda bem que não fechou!!! Pois foi isso que eu ouvi e fiquei muito preocupado... Não se acaba uma história tão bonita e importante assim do nada!
    Quero continuar a usar o melhor Chapéu Country de pêlo e lã que já vi... Vida longa a Cury! Meu chapéu favorito.
    Boa Sorte!!!

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  7. quero comprar como entrar em contato com voçer

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  8. Com voçer? ligue no 0800

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  9. Olá, alguém poderia me informar telefone de contato da Loja de Fabrica dos Chapéus Cury se é que existe. Estou precisando comprar um chapéu.
    Grata

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  10. O chapéus Cury está funcionando em outro local e terceirizado, Vou levantar as informações!

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    1. Esta funcionando em uma pequena instalação localizada na cidade de Bareri. Rota de Bareri para Avenida Prefeito João Vila-Lobos Quero - Jardim Itaquiti, Barueri - SP

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  11. https://m.facebook.com/ChapeusCury/

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  12. Que pena... tenho um Cury e é de excelente qualidade. Comprei na loja que funciona ou funcionava anexa ao prédio da fábrica. Ja enfrentou muita chuva, sol e até mesmo o deserto duas vezes, inclusive o Saara... e está com cara de novo alem de lindo.

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  13. Fechou e ficou me devendo um bom dinheiro pela prestação de serviço não pagos.

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  14. USEI MUITO TEMPO NA TELEVISÃO COMO APRESENTADOR!!!!!!!
    TEM ALGUNS NO MERCADO ,TO SABENDO QUE TAO FABRICANDO NA BOLIVIA.MUITO INFERIOR DO QUE ERA,SEM QUALIDADE AGORA!!!

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  15. Creio que Chapéus Cury foi vendida, há décadas passadas, para a Ramenzoni !!

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  16. Por estar representando campinas , uma pena estarem em esssas condicoes

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  17. Algum representante da cury no brasil???
    Caso alguém souber, favor nos informar

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  18. Algum representante da cury no brasil???
    Caso alguém souber, favor nos informar

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  19. Poderão entrar em Contato com
    Empresa especializada em calçados, chapéus, acessórios e artigos country, a loja JR Calçados e Chapéus, nasceu no ano de 1968.
    http://www.jrchapeus.com.br/
    (16) 3322-7621

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  20. http://www.jrchapeus.com.br/conteudo/chapeus-cury/77

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  21. Segunda feira ganhei um chapéu xxx Cury Ramenzoni, e fazendo uma limpeza, achei uma etiqueta datada de 04 87, esse chapéu era do meu tio Alfredo que comprou na chapelaria Cury aí em Campinas!
    O chapéu é estilo Fedora ou Borsolino preto de pelo de lebres, tem exatamente 30 anos e um mês e está perfeito, intacto, se quiserem mando fotos

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