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sexta-feira, 2 de março de 2012

Carta de Telma Regina

A Comissão da Verdade, criada pelo governo da presidenta Dilma Rousseff, busca reparar uma injustiça histórica -- ao menos no que diz respeito ao reestabelecimento dos fatos, tais como ocorreram durante a famigerada Ditadura Militar (1964 - 1985). A Lei da Anistia, evocada pelos saudosistas da linha-dura, não deve servir como desculpa para que se deixe de investigar os atentados cometidos contra os Direitos Humanos nos porões dos quartéis e das delegacias. Mesmo a guerra tem suas regras. A tortura, o assassinato de prisioneiros e a ocultação de cadáveres são crimes bárbaros, condenados inclusive pela Convenção de Genebra. Por isso, deixar que estes tristes episódios continuem enterrados na vala comum da história é também um crime. Crime contra as famílias das vítimas, que até hoje não puderam dar uma sepultura digna aos seus mortos, e crime contra a memória do povo brasileiro, que vai perdendo seu vínculo com o passado. A história de Telma Regina Cordeiro (foto) é uma dentre tantas esquecidas.

Escolhi falar de Telma porque creio ter sobre ela uma informação desconhecida aos historiadores que estudam aquele período: a cópia de uma carta, escrita por ela aos pais, explicando a sua decisão de largar tudo para se juntar a outros companheiros na chamada Guerrilha do Araguaia, movimento armado organizado pelo PC do B na selva amazônica como tentativa de se criar, naquela região, um foco de resistência ao regime militar que perseguia e assassinava seus militantes. Pode-se tecer críticas à forma como esta aventura foi planejada, mas não se pode deixar de reconhecer e respeitar o desprendimento daquela geração de jovens que se sacrificou pelo país. Os próprios militares que combateram os guerrilheiros chegaram a admitir, em entrevistas, que não concordavam com o inimigo, mas admiravam sua disciplina e disposição em lutar pelo que achavam correto.

Telma Regina Cordeiro, carioca do Rio de Janeiro, nascida em 23 de julho de 1947, era estudante de Geografia na Universidade Federal Fluminense quando decidiu se juntar aos guerrilheiros. Chegou à região da Araguaia em 1971, onde integrou-se ao Destamento B, às margens do Rio Gameleira. Segundo relatos de moradores, foi capturada e morta em janeiro de 1974, quando a maior parte da Guerrilha já se encontrava desmantelada e não oferecia resistência. Tinha 27 anos e seu corpo nunca foi encontrado.

A cópia da carta original redigida por Telma me foi confiada por uma de suas sobrinhas, há alguns anos.  Ela pode ser lida agora, na íntegra. Serve como documento de uma época e mostra o que pensavam e queriam aqueles que pegaram em armas para lutar contra a ditadura. Que a Comissão da Verdade possa, ao menos, descobrir quem matou Telma Regina e aonde ela está enterrada.

31/01/1971

Querida família,

Espero que vocês tenham entendido o que está ocorrendo. Estamos felizes e na certeza de que isto é realmente o que queríamos. Não poderíamos viver tranqüilos, sossegados na vida do "dia a dia", tendo a consciência de que é preciso fazer alguma coisa para libertar nosso povo da miséria e da exploração. A revolução brasileira está em processo acelerado e não podemos nesta hora nos omitir e deixar de dar nossa contribuição efetiva. Ninguém vai lutar pelo nosso povo a não ser nós mesmos, cabe a nós esta nobre tarefa de ser vanguarda na luta pela libertação de nosso povo e do povo explorado do mundo todo... 

Este mundo corrupto, infeliz, cheio de contradições, de misérias, de vícios que conhecemos, não deixaremos para os outros. Nas mãos de cada um de nós está esta responsabilidade. Qualquer homem comum é capaz de construir um mundo melhor. Para isso é necessário que se tenha disposição para lutar, dedicar-se de corpo e alma a esta tarefa, que é a maior contribuição que um homem pode dar à história, à humanidade...

Agora sabemos que nossa passagem pelo mundo foi importante. É necessário estar-se convicto para poder de sã consciência abdicar da vida privada, particular, para dedicar-se de corpo e alma a uma causa política universal... Estamos muito felizes... Esta foi a vida que de livre e espontânea vontade escolhemos... É movido pelo amor de vocês que lutamos. É pensando nos pais, filhos e irmãos que sofrem e morrem nas prisões. É pensando em milhões de famílias que vivem em condições subumanas, vendo seus filhos morrerem de fome... É para que todos possam ter o carinho e o amor de suas família, e possam ser felizes como nós, que lutamos...

Estamos aqui porque precisam de nós. Este povo miserável, doente e analfabeto precisa de quem os ajude e nós estamos prontos para isso... Vocês devem ficar orgulhosos em saber que o que nos ensinaram e a cultura que vocês nos possibilitaram ter, não está sendo utilizado à toa, que nós não nos corrompemos pelo dinheiro e fomos fiéis ao nosso ideal...

Esta vontade terrível de viver, esta alegria pela vida, este amor pelo homem, pela humanidade, esta esperança de um mundo melhor, aprendemos com vocês, em todas nossas alegrias e tristezas... Não deixaram que nos transformássemos em egoístas, individualistas. Quero que meus sobrinhos se orgulhem de mim... Quero que eles, ao serem adultos, desfrutem daquilo que me esforcei para deixar para eles... Alguém dizia: "Quem não conhece a verdade é apenas um ignorante, mas quem a conhece e a esconde é um criminoso".

Telma Regina Cordeiro